As dimensões do conhecimento da Educação Física PARTE 06
- Postado por Mario Junior
- Categorias CURRÍCULO DE EDUCAÇÃO FÍSICA
- Data 18 de outubro de 2023
O ensino por competências propõe o desenvolvimento de três dimensões do conhecimento: o saber sobre, o saber fazer e o saber ser e conviver. Apesar de pertencerem a modelos pedagógicos diferentes, poderíamos considerar o saber sobre como a dimensão conceitual, o saber fazer a dimensão procedimental e o saber ser e conviver como a dimensão atitudinal.
O importante para a discussão neste módulo é a observação de que o ensino por competências nos ajuda na reflexão sobre uma questão há muito discutida em educação, a relação entre o que a escola ensina e o que os alunos precisam aprender.
Os conteúdos das disciplinas costumam ser especificamente conceituais e, muitas vezes, não se ligam às questões relacionadas às necessidades dos alunos. Esse é um problema que percorre toda a educação básica e que permanece no ensino superior, pois há uma visível desconexão entre os conteúdos e a prática profissional.
A questão se torna mais passível de discussão quando ouvimos cada vez mais falar em propostas de ensino baseadas em uma educação integral, que possibilite aos alunos interagir e intervir em diferentes âmbitos da vida, mas, ao mesmo tempo, o ingresso no ensino superior é um processo que privilegia a aquisição de conteúdos ou o saber por saber.
No ensino por competências há uma mudança de perspectiva tanto em relação aos conhecimentos quanto à sua utilização. Em primeiro lugar, procura-se ajudar a repensar sobre o que seria importante se aprender na escola. Como antigamente as fontes de informação sobre o mundo eram restritas, a escola era a única oportunidade que os alunos tinham para terem acesso ao conhecimento que os auxiliasse a conviver na sociedade da qual faziam parte.
Era de se esperar, portanto, que os alunos findassem o seu período escolar com a maior quantidade de conhecimento possível. Cada componente curricular se propunha a ensinar a maior quantidade possível de conteúdos para que os alunos, ao final do período escolar, estivessem munidos de todos os conhecimentos necessários para viver em sociedade.
Como hoje em dia o acesso ao conhecimento não é mais restrito como antes e novos conhecimentos surgem muito rapidamente, numa velocidade que é difícil ser acompanhada pela escola, criou-se um desafio para a instituição.
Houve ou está havendo uma necessidade de revisão tanto do que a escola deve ensinar como de qual maneira os professores devem ensinar. É nesse cenário que o trabalho por competências se insere.
A BNCC propõe as aprendizagens essenciais, ou seja, o que seria o mínimo necessário para os alunos aprenderem ao final da educação básica, numa proposta de redução dos conteúdos.
Uma vez reduzidos os conteúdos, dispõem-se de mais tempo para ensinar e é possível aprofundar as aprendizagens. Além disso, o foco de atuação do professor passar a ser utilizar os conteúdos para que os alunos desenvolvam competências.
Conforme dissemos em módulos anteriores, o trabalho por competências valoriza o saber fazer, que é um conhecimento muito presente nas aulas de Educação Física. Entretanto, é necessário que outras dimensões de conhecimento também sejam valorizadas em nosso componente curricular.
A Base Nacional explicita quais são as dimensões do conhecimento a serem trabalhadas na Educação Física e qual o significado de cada uma delas. Iremos discutir um pouco sobre essas dimensões do conhecimento.
A Base Nacional propõe uma distribuição de unidades temáticas em biênio e triênio, ou seja, os mesmos objetos de conhecimento são propostos para grupos de dois ou três anos. Essa é uma organização que, a nosso ver, facilita o discurso da equipe gestora de que é possível unir as turmas, visto que são as mesmas aprendizagens essenciais em anos diferentes.
Cabe a nós, na organização do currículo, propor habilidades que levem em conta essa progressão.
Para iniciar nossa conversa, gostaríamos de retomar alguns pontos importantes que devem estar sempre presentes em nosso discurso:
Outro ponto importante refere-se à prática pedagógica dos professores de Educação Física. Ao contrário do que muitos pensam, a Base Nacional não propõe uma mudança radical nem quanto à forma de ensinar nem quanto aos conteúdos a serem desenvolvidos.
Muitos professores já desenvolvem suas aulas numa lógica semelhante à proposta pela Base Nacional. Para aqueles que ainda não trabalham desse modo, acreditamos que a base propõe somente uma mudança de foco ou de abordagem no desenvolvimento das aulas.
Reforçamos aqui a importância de se analisar a Base de uma maneira um pouco mais ampla e mais profunda. Conforme dissemos, uma leitura superficial da base pode levar a uma interpretação errônea de que os alunos na aula de Educação Física irão aprender a jogar, brincar, dançar, lutar ou a praticar uma modalidade esportiva.
Consideramos importante a experimentação dessas práticas corporais, mas não com fim em si mesmas. É importante que saibamos deixar isso claro para os outros professores, para equipe gestora, alunos e pais.
De acordo com a BNCC, o contato com as práticas corporais propicia aos alunos se apropriarem das lógicas intrínsecas a essas manifestações, como regras, códigos, rituais ou sistemáticas de funcionamento; assim como os significados que lhes são atribuídos. Portanto, as aprendizagens devem privilegiar as oito dimensões do conhecimento.
A imagem abaixo apresenta um quadro geral sobre essas oito dimensões do conhecimento da Educação Física. Essas dimensões podem ser agrupadas em três conjuntos que as relacionam ao saber sobre, ao saber fazer e ao saber ser e conviver.
As dimensões do saber fazer
Na dimensão experimentação, a descrição propõe que, além da vivência, deve-se cuidar para que as sensações não causem rejeição à prática. Sabemos que, por mais que se tome cuidado quanto à escolha das atividades, é natural que haja momentos ou atividades que não agradam a todos os alunos.
Pode ser numa situação de derrota num jogo, a frustração por não conseguir realizar determinado movimento, ou sensações corporais devido às exigências de determinada prática.
Acreditamos que essas situações são muito importantes para que se proponham momentos nos quais os alunos possam compartilhar com os colegas e o professor suas sensações, boas ou ruins. Esses diálogos muitas vezes servem de incentivo para que os alunos lidem com suas frustrações e sejam estimulados a se superar mediante as dificuldades.
Vale ressaltar que, para isso, a mediação do professor é bastante importante.
Na dimensão fruição é interessante notar a importância dada às sensações relacionadas às vivências corporais, tanto relacionada às experimentações como à apreciação estética, como assistir a um espetáculo de dança ou a uma modalidade esportiva.
As dimensões do saber ser e conviver
A dimensão de construção de valores evidencia os conhecimentos que surgem das discussões e experimentações que ocorrem nas aulas de Educação Física. Importante notar que essa dimensão pressupõe a intervenção do professor, que precisa evidenciá-la durante as aulas e incluí-la numa situação de aprendizagem. Esta dimensão é especialmente importante, pois sugere que se aprofunde a discussão sobre o combate a preconceitos e às diferenças.
A dimensão do protagonismo comunitário procura incentivar os alunos no desenvolvimento da autonomia e consciência crítica em relação ao seu ambiente social. É importante que os alunos se apropriem dos seus direitos e deveres relativos à sua movimentação corporal. Por exemplo, o direto à utilização dos espaços públicos e privados, cujo acesso pode ser cobrado das instituições responsáveis pela organização de espaços que possam ser utilizados pela comunidade; a necessidade da conscientização das pessoas sobre a preservação desses espaços; e as possibilidades de aumentar o acesso das pessoas a eles.

Dimensões do saber sobre
A dimensão reflexão sobre a ação possibilita que os alunos expressem suas sensações advindas das práticas sugeridas durante as aulas.
Além das reflexões sugeridas pela Base, que se referem a interações com a própria atividade, as reflexões permitem que os alunos desenvolvam percepções sobre si próprios e sobre os colegas, o que lhes permite perceber que uma mesma atividade produz sensações diversas, que podem ser tanto positivas como negativas.
Essa percepção de si e dos outros faz com que interajam de modo diverso com situações de movimentações e estimula os alunos a se apropriarem de conhecimentos sobre o que estão realizando, como, por exemplo, saber por que se cansam ou porque, para uma determinada atividade, alguns cansam mais do que os outros, ou saber por que alguns se destacam em atividades que requerem mais força ou potência muscular enquanto outros se destacam em atividades de agilidade e velocidade.
A dimensão análise complementa ou associa-se à reflexão sobre a ação. As reflexões sobre o que fizeram levam à necessidades de aquisição de conceitos para que se desenvolvam as competências relacionadas às aprendizagens. É importante estimular os alunos a se apropriarem desses conceitos, indo além das discussões sobre o que realizaram e buscando respostas que os façam ampliar as aprendizagens.
A dimensão compreensão está associada, na BNCC, a esclarecer o processo de surgimento, desenvolvimento e utilização das práticas corporais. Julgamos importante relembrar que numa escala hierárquica dos processos de aprendizagem, a compreensão antecede a análise, ou seja, para que se possa analisar um fenômeno, é preciso inicialmente compreender como esse fenômeno se manifesta.
As dimensões do conhecimento foram descritas separadamente para que ficasse mais clara a sua compreensão. É importante que, na elaboração dos planos de aula, haja a intencionalidade de se desenvolver situações de aprendizagem que envolvam o saber sobre, o saber fazer e o saber ser e conviver.
O fazer nas aulas de Educação Física é muito importante e constitui um conhecimento, porém, quando os alunos fazem sem saber porque estão fazendo, para eles, não estão aprendendo algo, mas apenas “fazendo”.
Isso se manifesta no discurso que ouvimos a todo o momento: “Estudei matemática e ‘fiz’ Educação Física”. Esse discurso não advém apenas dos alunos. Professores de outros componentes, coordenadores, diretores, pais e familiares e até professores de Educação Física falam dessa forma.
Acreditamos que é um discurso que pode e deve ser mudado. Se, nas aulas de Educação Física, temos que desenvolver oito dimensões de conhecimento, não seria o momento de mudar o discurso de que não estão aprendendo algo, só fazendo? Pode parecer uma questão sem importância no dia a dia, mas ela significa muito em termos de educação.
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