Currículo de Educação Física Parte 1
O QUE É EDUCAÇÃO FÍSICA?
A disciplina de Educação Física trata da: Cultura corporal do movimento, que é tudo aquilo que homens e mulheres acrescentaram e continuam acrescentando à natureza do movimento com finalidade de expressar sentimentos, emoções e desejos que ultrapassam os determinismos físicos e biológicos.
A Educação Física tem como finalidade fazer com que alunos vivenciem a Cultura Corporal do Movimento ampliando e melhorando suas interações sociais, possibilitando assim uma formação integral para a vida em sociedade.
Na concepção da BNCC, a Educação Física, estuda o movimentar-se do ser humano inserido no âmbito da cultura, e esse movimentar-se inclui as práticas corporais, atividades físicas, exercício físico e todos os movimentos que realizamos em nosso dia a dia.
A questão é que o movimentar-se, objeto de estudo da Educação Física, não é de natureza igual ao objeto dos demais componentes. É importante admitir isso. Há uma diferenciação entre a Educação Física e os demais componentes do currículo escolar. Alguns autores dizem que o nosso objeto é de caráter híbrido (Betti 2018). Nosso objeto, sendo de natureza diferente, muitas vezes causa desconhecimento e estranheza por parte dos outros componentes.
Nas aulas de Educação Física, nós não apenas refletimos sobre o objeto, mas agimos com ele. Os outros componentes não agem com o seu objeto, ou pelo menos não do modo como agimos, embora possam se apropriar de forma transdisciplinar dos conteúdos da Educação Física, para elaborar planos de aulas mais dinâmicos, que envolvam de forma mais ampla o movimento corporal, lembrando que no corpo também está incluso o “Cérebro” com todo o seu processo mental, relação com a nossa estrutura anatomo-fisiológica e o processo ensino-aprendizagem, tão pesquisado e ensinado na no campo da ciência sobre motricidade humana.
Usando a linguagem das competências, a teoria seria o conhecimento do saber sobre alguma coisa e a prática seria o conhecimento do saber fazer. Em nossas aulas deve haver reflexão e haver ação. Não devemos tentar ser como os outros componentes curriculares, mas sim mostrar a importância que o nosso componente tem dentro da escola.
Justamente por ser diferente, a Educação Física encontra certas dificuldades na escola visto que:
1. A escola é normativa, o que implica dizer que o movimentar-se é visto como caos e desordem por parte dos outros professores e da equipe gestora. Alunos que correm no corredor, aulas de Educação Física que fazem barulho, crianças que chegam “agitadas” na sala após a aula de Educação Física, o recreio que muitas vezes é visto como caótico.
2. As pessoas veem no movimento algo simples, sem importância. Por exemplo, para uma criança que não escreve, esse é um movimento bastante complexo, mas que, uma vez incorporado, deixa de sê-lo. Portanto, quando as pessoas veem crianças movimentando-se numa quadra, têm dificuldade em compreender que o movimentar-se é algo complexo, que mesmo os movimentos mais simples exigem percepção do ambiente, julgamento, tomada de decisões, planejamento, execução e avaliação. As pessoas pensam apenas na execução. Considere o quadro abaixo em que se ilustra o que faz uma pessoa jogando tênis ao rebater uma bola:

(A) Orientação à bola: aqui o praticante age e percebe ao mesmo tempo, ao se orientar para o que é mais relevante para fazer a rebatida.
(B) Qual é o cenário? Como mudá-lo? o praticante interpreta a situação, forma um cenário em que imagina diferentes situações desde como virá a bola, até as consequências dele rebater de um jeito ou outro.
(C) O Plano de Ação: o praticante toma uma decisão sobre o que e como fazer. Isso configura um plano de ação e podemos dizer uma hipótese sobre uma dada relação entre ele, seus movimentos e as consequências sensoriais.
(D) O Fazer: agora ela ou ele realiza o que planejou, coloca em prática a sua hipótese na forma de plano de ação, antes de ser uma repetição mecânica ou movimentação automática, o praticante realiza um experimento ao rebater a bola.
(E) Avaliação: ao executar, o praticante pode avaliar a sua hipótese sobre as relações entre o cenário que imaginou, a decisão que tomou e o plano de ação que implementou com as consequências ambientais.
Os processos descritos acima ocorrem todas as vezes que realizamos ações motoras, seja para rebater ou chutar uma bola ou para alcançar e pegar uma xícara de café.
3. O desconhecimento sobre a complexidade do movimentar-se e a sua simplificação leva, às vezes, a uma atitude preconceituosa, pois o mover-se livremente ou numa aula de Educação Física teria pouco valor formativo e pedagógico no que diz respeito ao conhecimento. A escola se vê como o lugar do pensamento e do raciocínio, e tem dificuldade de reconhecer o mover-se como uma parte que a integra. Em outras palavras, o mover-se é do corpo e o pensar, raciocinar, é da escola.
4. O professor de Educação Física tem dificuldade em explicar sobre o saber fazer como um conhecimento nas suas aulas, o que remete a um discurso de que nas aulas de Educação Física não se estuda, apenas se faz.
Uma das premissas básicas do trabalho por competências proposto na BNCC é a valorização do saber fazer. Anteriormente, a finalidade das aulas era ensinar os conteúdos. Na lógica da BNCC, os conteúdos ou, no caso, as aprendizagens, são meios para se desenvolver as competências. O envolvimento dos alunos com o conhecimento deixa de ser passivo e o protagonismo é valorizado. Para tanto, as estratégias propostas pelos professores devem tornar os alunos participantes ativos do processo de aprendizagem. Percebam que nós, da Educação Física, trabalhamos o tempo todo nessa lógica, e aí reside uma grande oportunidade para a Educação Física, visto que essa perspectiva valoriza as aulas de Educação Física e possibilita ampliar o conhecimento das pessoas sobre nossa área. Para isso, é importante compreender como o saber fazer se manifesta como um conhecimento e como fazer os alunos reconhecerem que ao movimentar-se estão aprendendo e não só fazendo Educação Física.
A Educação Física trata do conhecimento que é de ordem pessoal ou tácito e que só se adquire pela experiência. É um conhecimento difícil de ser declarado ou explicado para outra pessoa e que é pouco valorizado ou pouco compreendido na escola, e mesmo talvez na nossa sociedade de um modo mais geral, porque estamos mais habituados a trabalhar com conhecimentos de outra natureza, que podemos chamar de conhecimentos explícitos ou declarativos. Ao mesmo tempo, o conhecimento pessoal é valorizado no trabalho por competências. Observe na imagem abaixo as dimensões das competências gerais propostas pela BNCC:
Algumas competências gerais da BNCC, como as relacionadas à empatia, cooperação e argumentação, por exemplo, são desenvolvidas numa perspectiva pessoal com o conhecimento. Vejamos como isso pode se relacionar com a aula de Educação Física.
Numa aula convencional, todos têm que aprender um determinado conteúdo do mesmo modo. Esse é um procedimento que devemos evitar nas aulas de Educação Física, tendo em mente que é fundamental que todos aprendam os conteúdos, mas que isso não necessariamente ocorrerá do mesmo modo para cada aluno. Como conduzir as aulas no sentido de que os alunos compreendam que estão aprendendo algo durante as aulas de Educação Física?
Esta é uma questão importante e para qual não existe uma única resposta. Sabemos que ela não significa que devemos passar a dar aula na sala de aula assim como os outros componentes. Nesse aspecto, conforme dissemos, o trabalho por competências proposto na BNCC auxilia em parte na resolução dessa questão.
Quando propomos uma atividade nas aulas de Educação Física, a experimentação adquire um significado diferente para cada um. Em outras palavras, uma mesma atividade gera sensações diferentes de acordo com aquele que a pratica. Alguns podem ter dificuldade em realizar as tarefas e até sentir desconforto durante a prática, enquanto para outros a tarefa pode ser fácil demais e entediante, visto que esse conhecimento é de ordem pessoal.
É importante que se criem momentos de discussão sobre as sensações que os alunos tiveram depois das experimentações, pois, ao poder verbalizar o que fizeram e o que sentiram, discutindo sobre as sensações e os desafios impostos pela atividade, os alunos menos hábeis podem refletir sobre os recursos que já possuem e sobre aqueles que eles precisam para resolver determinada tarefa, enquanto os alunos mais hábeis podem impor a si maiores desafios e reconhecer que podem colaborar com os menos hábeis. Nessa lógica, o resultado é menos importante que o processo.
Os alunos aprendem a analisar os recursos que possuem para solucionar os desafios, bem como a buscar meios externos no caso de seus recursos serem insuficientes, como, por exemplo, a sugestão dos colegas ou a orientação do professor. Nesse processo, além de perceberem que estão fazendo e conhecendo, os alunos aprendem sobre como aprender. Sempre ao final das aulas é importante possibilitar que os alunos relatem o que aprenderam, ou seja, aquilo que não sabiam fazer antes e agora sabem. E sempre reforçar que, se passam a saber fazer, então aprenderam algo.
O que acabou de ser descrito acima, é uma tentativa de verbalizar experiências e sentimentos, como uma possível forma de se tentar traduzir um conhecimento de ordem pessoal num conhecimento declarativo. Uma outra maneira de tornar mais aparente esse conhecimento pode ser através de uma Avaliação Formativa baseada em “Rubricas”, as quais também é recomendado serem feitas em conjunto professor/estudantes. Os estudantes farão sua auto-avaliação de acordo com os desempenhos ou competências listadas nas rubricas, podendo descrever as sensações, as dificuldades, as sugestões compartilhadas, as impressões após as experimentações e aquilo que não sabiam ou não conseguiam fazer e puderam aprender após as experimentações. Este recurso avaliativo é ótimo tanto para aulas na quadra como em aulas em ambiente de sala, ao trabalhar por exemplo “roda de de conversa-debate”.
Entenda mais sobre “RUBRICAS”, clicando aqui:
foco no aluno:
Há um outro aspecto que a BNCC propõe e sobre o qual também é importante refletirmos a respeito: trazer o foco para os alunos e não para o conteúdo.
A todo o momento o professor possibilita o diálogo para que os alunos percebam que inicialmente tentaram cumprir a tarefa a partir de seus recursos próprios, em seguida tentaram resolver a tarefa de maneiras diferentes, o que proporcionou a experimentação e incorporação de novas habilidades e, no final, aprenderam que, dentro das diversas possibilidades de se executar uma tarefa, existem algumas que são mais eficientes.
Numa lógica voltada para o treinamento esportivo, os movimentos passam a exigir habilidades mais refinadas. Nessa perspectiva, as possibilidades de se realizar uma tarefa são reduzidas, pois exigem movimentos mais específicos. Por exemplo, num treinamento de basquete os alunos não podem conduzir a bola quicando com as duas mãos. Ou andar segurando as bolas com as mãos.
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Toda tarefa tem uma intenção e um objetivo por parte de quem a executa que é realizada por meio de uma ação.
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Pode-se chegar ao objetivo por meio de vários movimentos diferentes (representadas pelos riscos em azul, preto, vermelho e roxo). Por exemplo, na atividade proposta os participantes realizaram vários movimentos diferentes para cumprir os objetivos. A qualidade com que se alcançam os objetivos por meio dos movimentos é referente à habilidade que se tem para realiza-los.
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Quanto maior a quantidade de movimentos possíveis para se realizar uma tarefa, maior o grau de liberdade de escolha por parte de quem os executará.
Nesse formato de aulas, seria possível possibilitar algumas aprendizagens aos alunos que estão em diversos objetos de conhecimento da BNCC:
Disponível no site ava.impulsiona.org.br através do Link:
Acessado em 22/09/2023
BNCC na prática: como planejar as aulas de Educação Física
Documento Curricular do Tocantins
VEJA O QUE A MATRIZ DE LINGUAGENS ENVIADA PELA SEDUC ÀS ESCOLAS PÚBLICAS de ensino médio SUGERE TRABALHAR:

Grupo 1 – Práticas corporais institucionalizadas como: esportes, danças, ginásticas em geral, lutas, outras;
Grupo 2 – Práticas corporais não institucionalizadas como: atividades cênicas, atividades circenses, atividades recreativas, outras;
Grupo 3 – Tópicos emergentes: sexualidade, gênero, etnias, cuidado com o corpo, estética, esporte e sociedade.
E quais são as habilidades que o professor deve pensar quando da elaboração dos seus planos de aula:
- EM13LGG101 – Compreender e analisar processos de produção e circulação de discursos, nas diferentes linguagens, para fazer escolhas fundamentadas em função de interesses pessoais e coletivos.
- EM13LGG103 – Analisar o funcionamento das diversas linguagens, para interpretar e produzir criticamente discursos em textos de diversas semioses (visuais, verbais, sonoras, gestuais).
- EM13LGG104 – Utilizar as diferentes linguagens, levando em conta seus funcionamentos, para a compreensão e produção de textos e discursos em diversos campos de atuação social.
- EM13LGG105 – Analisar e experimentar diversos processos de remidiação de produções multissemióticas, multimídia e transmídia, desenvolvendo diferentes modos de participação e intervenção social.
- EM13LGG401 – Analisar criticamente textos de modo a compreender e caracterizar as línguas como fenômeno (geo)político, histórico, social, cultural, variável, heterogêneo e sensível aos contextos de uso.
- EM13LGG502 – Analisar criticamente preconceitos, estereótipos e relações de poder presentes nas práticas corporais, adotando posicionamento contrário a qualquer manifestação de injustiça e desrespeito a direitos humanos e valores democráticos.
- EM13LGG601 – Apropriar-se do patrimônio artístico de diferentes tempos e lugares, compreendendo a sua diversidade, bem como os processos de legitimação das manifestações artísticas na sociedade, desenvolvendo visão estética crítica e histórica.
- EM13LGG604 – Relacionar as práticas artísticas às diferentes dimensões da vida social, cultural, política e econômica e identificar o processo de construção histórica dessas práticas.
Referem-se às atividades que contêm um formato definido, as quais se constituem
por regras determinadas e execuções padronizadas e esperadas, ainda que em
ambientes lúdicos, uma vez que existem entidades responsáveis por sua organização e
desenvolvimento. São elas:
a) Atividades aquáticas: natação, polo aquático, nado sincronizado, saltos
ornamentais, maratona aquáticas, outros;
b) Atletismo: corridas, saltos, lançamentos e arremessos;
c) Dança: locais, regionais, nacionais e internacionais;
d) Esportes coletivos com bola: futebol, futsal, futebol de areia, basquete, vôlei, vôlei
de praia, handebol, outros;
e) Esportes com raquetes: tênis, tênis de mesa, badminton, squash, frescobol,
tamboréu, paddle, outros;
f) Ginástica Geral: saltos, saltitos, giros, rolamentos, volteios, apoios invertidos,
acrobacias, formação de figuras humanas, composição coreográfica em grandes
grupos, dentre outros;
g) Lutas: boxe, capoeira, judô, karatê, jiu-jitsu, kung-fu, taekwondo, sumô, outros.
Encontram-se neste grupo as manifestações corporais que não têm um destaque
midiático tão intenso. São aquelas que precisam de maiores discussões e um nível de
compreensão, por serem desconhecidas ou pouco praticadas pelo grande público,
nem por isso, menos importantes. São elas:
a) Musculação;
b) Alongamento;
c) Variações de ginástica de academia;
d) Hidroginástica;
e) Atividades cênicas;
f) Atividades circenses;
g) Atividades recreativas;
h) Atividades alternativas (yoga, tai-chi-chuan, lien ch’i, massagens, festas
temáticas, outros);
i) Atividades sobre rodas: andar de bicicleta, patins, skate, patinete, outros;
j) Atividades de aventura: trilhas, escaladas, caminhadas, acampamentos, outros.
São práticas muito importantes que respondem a muitas inquietações dos
estudantes do Ensino Médio, pois nem sempre são assuntos discutidos com a liberdade
e a profundidade devida. São elas:
a) Sexualidade: medos, mitos e verdades; doenças sexualmente transmissíveis;
discriminação; gravidez precoce; outros;b) Gênero: diferenças biológicas e culturais, discriminação, outros;
c) Etnias: cor, padrões de comportamento, cultura, biotipia, preconceito, outros;
d) Cuidados com o corpo: saúde, alimentação/nutrição, dieta, obesidade, diabetes, colesterol, triglicérides, primeiros socorros, outros;
e) Estética: padrões corporais, a valorização na sociedade e pela mídia, uso de
anabolizantes e drogas em geral, cirurgias plásticas, implantes, anorexia, bulimia e vigorexia, outros;f) Esporte e sociedade: mulher no esporte, o poder e o monopólio da mídia, políticas
de esporte, marketing, grifes, patrocínios, consumo de produtos, doping, lesões, outros.
Disponível no site da SEDUC do Estado do Tocantins através do Link:
Acessado em 22/09/2023
https://central.to.gov.br/download/314420
COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA PARA O ENSINO FUNDAMENTAL
- Compreender a origem da cultura corporal de movimento e seus vínculos com a organização da vida coletiva e individual.
- Planejar e empregar estratégias para resolver desafios e aumentar as possibilidades de aprendizagem das práticas corporais, além de se envolver no processo de ampliação do acervo cultural nesse campo.
- Refletir, criticamente, sobre as relações entre a realização das práticas corporais e os processos de saúde/doença, inclusive no contexto das atividades laborais.
- Identificar a multiplicidade de padrões de desempenho, saúde, beleza e estética corporal, analisando, criticamente, os modelos disseminados na mídia e discutir posturas consumistas e preconceituosas.
- Identificar as formas de produção dos preconceitos, compreender seus efeitos e combater posicionamentos discriminatórios em relação às práticas corporais e aos seus participantes.
- Interpretar e recriar os valores, os sentidos e os significados atribuídos às diferentes práticas corporais, bem como aos sujeitos que delas participam.
- Reconhecer as práticas corporais como elementos constitutivos da identidade cultural dos povos e grupos.
- Usufruir das práticas corporais de forma autônoma para potencializar o envolvimento em contextos de lazer, ampliar as redes de sociabilidade e a promoção da saúde.
- Reconhecer o acesso às práticas corporais como direito do cidadão, propondo e produzindo alternativas para sua realização no contexto comunitário.
- Experimentar, desfrutar, apreciar e criar diferentes brincadeiras, jogos, danças, ginásticas, esportes, lutas e práticas corporais de aventura, valorizando o trabalho coletivo e o protagonismo.
Dimensões de conhecimento na Educação Física:
- Experimentação: refere-se à dimensão do conhecimento que se origina pela vivência das práticas corporais, pelo envolvimento corporal na realização das mesmas. São conhecimentos que não podem ser acessados sem passar pela vivência corporal, sem que sejam efetivamente experimentados. Trata-se de uma possibilidade única de apreender as manifestações culturais tematizadas pela Educação Física e do estudante se perceber como sujeito “de carne e osso”. Faz parte dessa dimensão, além do imprescindível acesso à experiência, cuidar para que as sensações geradas no momento da realização de uma determinada vivência sejam positivas ou, pelo menos, não sejam desagradáveis a ponto de gerar rejeição à prática em si.
- Uso e apropriação: refere-se ao conhecimento que possibilita ao estudante ter condições de realizar de forma autônoma uma determinada prática corporal. Trata-se do mesmo tipo de conhecimento gerado pela experimentação (saber fazer), mas dele se diferencia por possibilitar ao estudante a competência43 necessária para potencializar o seu envolvimento com práticas corporais no lazer ou para a saúde. Diz respeito àquele rol de conhecimentos que viabilizam a prática efetiva das manifestações da cultura corporal de movimento não só durante as aulas, como também para além delas.
- Fruição: implica a apreciação estética das experiências sensíveis geradas pelas vivências corporais, bem como das diferentes práticas corporais oriundas das mais diversas épocas, lugares e grupos. Essa dimensão está vinculada com a apropriação de um conjunto de conhecimentos que permita ao estudante desfrutar da realização de uma determinada prática corporal e/ou apreciar essa e outras tantas quando realizadas por outros.
- Reflexão sobre a ação: refere-se aos conhecimentos originados na observação e na análise das próprias vivências corporais e daquelas realizadas por outros. Vai além da reflexão espontânea, gerada em toda experiência corporal. Trata-se de um ato intencional, orientado a formular e empregar estratégias de observação e análise para: (a) resolver desafios peculiares à prática realizada; (b) apreender novas modalidades; e (c) adequar as práticas aos interesses e às possibilidades próprios e aos das pessoas com quem compartilha a sua realização.
- Construção de valores: vincula-se aos conhecimentos originados em discussões e vivências no contexto da tematização das práticas corporais, que possibilitam a aprendizagem de valores e normas voltadas ao exercício da cidadania em prol de uma sociedade democrática. A produção e partilha de atitudes, normas e valores (positivos e negativos) são inerentes a qualquer processo de socialização. No entanto, essa dimensão está diretamente associada ao ato intencional de ensino e de aprendizagem e, portanto, demanda intervenção pedagógica orientada para tal fim. Por esse motivo, a BNCC se concentra mais especificamente na construção de valores relativos ao respeito às diferenças e no combate aos preconceitos de qualquer natureza. Ainda assim, não se pretende propor o tratamento apenas desses valores, ou fazê-lo só em determinadas etapas do componente, mas assegurar a superação de estereótipos e preconceitos expressos nas práticas corporais.
- Análise: está associada aos conceitos necessários para entender as características e o funcionamento das práticas corporais (saber sobre). Essa dimensão reúne conhecimentos como a classificação dos esportes, os sistemas táticos de uma modalidade, o efeito de determinado exercício físico no desenvolvimento de uma capacidade física, entre outros.
- Compreensão: está também associada ao conhecimento conceitual, mas, diferentemente da dimensão anterior, refere-se ao esclarecimento do processo de inserção das práticas corporais no contexto sociocultural, reunindo saberes que possibilitam compreender o lugar das práticas corporais no mundo. Em linhas gerais, essa dimensão está relacionada a temas que permitem aos estudantes interpretar as manifestações da cultura corporal de movimento em relação às dimensões éticas e estéticas, à época e à sociedade que as gerou e as modificou, às razões da sua produção e transformação e à vinculação local, nacional e global. Por exemplo, pelo estudo das condições que permitem o surgimento de uma determinada prática corporal em uma dada região e época ou os motivos pelos quais os esportes praticados por homens têm uma visibilidade e um tratamento midiático diferente dos esportes praticados por mulheres.
- Protagonismo comunitário: refere-se às atitudes/ações e conhecimentos necessários para os estudantes participarem de forma confiante e autoral em decisões e ações orientadas a democratizar o acesso das pessoas às práticas corporais, tomando como referência valores favoráveis à convivência social. Contempla a reflexão sobre as possibilidades que eles e a comunidade têm (ou não) de acessar uma determinada prática no lugar em que moram, os recursos disponíveis (públicos e privados) para tal, os agentes envolvidos nessa configuração, entre outros, bem como as iniciativas que se dirigem para ambientes além da sala de aula, orientadas a interferir no contexto em busca da materialização dos direitos sociais vinculados a esse universo.
BNCC – Etapa do ensino fundamental
COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS DE LINGUAGENS E SUAS TECNOLOGIAS PARA O ENSINO MÉDIO
- Compreender o funcionamento das diferentes linguagens e práticas culturais (artísticas, corporais e verbais) e mobilizar esses conhecimentos na recepção e produção de discursos nos diferentes campos de atuação social e nas diversas mídias, para ampliar as formas de participação social, o entendimento e as possibilidades de explicação e interpretação crítica da realidade e para continuar aprendendo.
- Compreender os processos identitários, conflitos e relações de poder que permeiam as práticas sociais de linguagem, respeitando as diversidades e a pluralidade de ideias e posições, e atuar socialmente com base em princípios e valores assentados na democracia, na igualdade e nos Direitos Humanos, exercitando o autoconhecimento, a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, e combatendo preconceitos de qualquer natureza.
- Utilizar diferentes linguagens (artísticas, corporais e verbais) para exercer, com autonomia e colaboração, protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva, de forma crítica, criativa, ética e solidária, defendendo pontos de vista que respeitem o outro e promovam os Direitos Humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável, em âmbito local, regional e global.
- Compreender as línguas como fenômeno (geo)político, histórico, cultural, social, variável, heterogêneo e sensível aos contextos de uso, reconhecendo suas variedades e vivenciando-as como formas de expressões identitárias, pessoais e coletivas, bem como agindo no enfrentamento de preconceitos de qualquer natureza.
- Compreender os processos de produção e negociação de sentidos nas práticas corporais, reconhecendo-as e vivenciando-as como formas de expressão de valores e identidades, em uma perspectiva democrática e de respeito à diversidade.
- Apreciar esteticamente as mais diversas produções artísticas e culturais, considerando suas características locais, regionais e globais, e mobilizar seus conhecimentos sobre as linguagens artísticas para dar significado e (re)construir produções autorais individuais e coletivas, exercendo protagonismo de maneira crítica e criativa, com respeito à diversidade de saberes, identidades e culturas.
- Mobilizar práticas de linguagem no universo digital, considerando as dimensões técnicas, críticas, criativas, éticas e estéticas, para expandir as formas de produzir sentidos, de engajar-se em práticas autorais e coletivas, e de aprender a aprender nos campos da ciência, cultura, trabalho, informação e vida pessoal e coletiva.
Na área de Linguagens e suas Tecnologias, a Educação Física possibilita aos estudantes explorar o movimento e a gestualidade em práticas corporais de diferentes grupos culturais e analisar os discursos e os valores associados a elas, bem como os processos de negociação de sentidos que estão em jogo na sua apreciação e produção. Nesse sentido, estimula o desenvolvimento da curiosidade intelectual, da pesquisa e da capacidade de argumentação.
Na BNCC para o Ensino Fundamental, a Educação Física procurou garantir aos estudantes oportunidades de compreensão, apreciação e produção de brincadeiras, jogos, danças, ginásticas, esportes, lutas e práticas corporais de aventura. As práticas foram trabalhadas visando: à identificação de suas origens e dos modos como podem ser aprendidas; ao reconhecimento dos modos de viver e perceber o mundo a elas subjacentes; ao compartilhamento de valores, condutas e emoções nelas expressos; à percepção das marcas identitárias e à desconstrução de preconceitos e estereótipos nelas presentes; e, também, à reflexão crítica a respeito das relações práticas corporais, mídia e consumo, como também quanto a padrões de beleza, exercício, desempenho físico e saúde.
No Ensino Médio, além da experimentação de novos jogos e brincadeiras, esportes, danças, lutas, ginásticas e práticas corporais de aventura, os estudantes devem ser desafiados a refletir sobre essas práticas, aprofundando seus conhecimentos sobre as potencialidades e os limites do corpo, a importância de se assumir um estilo de vida ativo, e os componentes do movimento relacionados à manutenção da saúde. É importante também que eles possam refletir sobre as possibilidades de utilização dos espaços públicos e privados que frequentam para desenvolvimento de práticas corporais, inclusive as aprendidas na escola, de modo a exercer sua cidadania e seu protagonismo comunitário. Esse conjunto de experiências, para além de desenvolver o autoconhecimento e o autocuidado com o corpo e a saúde, a socialização e o entretenimento, favorece o diálogo com as demais áreas de conhecimento, ampliando a compreensão dos estudantes a respeito dos fenômenos da gestualidade e das dinâmicas sociais associadas às práticas corporais.
Essa reflexão sobre as vivências também contribuem para a formação de sujeitos que possam analisar e transformar suas práticas corporais, tomando e sustentando decisões éticas, conscientes e reflexivas em defesa dos direitos humanos e dos valores democráticos.
Valores Éticos
Construção de valores no processo ensino/aprendizagem de educação física.
Segundo Guimarães et al. (2001) a atividade física e o esporte podem ser ferramentas importantes na educação para valores por diversos fatores, entre eles seu caráter lúdico e gerador de diferentes experiências, o caráter de superação e cooperação, a interação interpessoal que estes promovem e também pela presença constante de conflitos. É a partir, principalmente, destes conflitos que podemos introduzir noções de valores positivos, considerando que o desporto pode também, se não bem orientado, desencadear valores não desejáveis como agressividade, exclusão, desprezo, obsessão pela vitória, etc. (PRAT, SOLER, GARCIA e PASCUAL, 2002).
Rossetto Junior e Ardigó Junior (2005) citam que o esporte como instrumento educacional, deve contribuir para a construção de valores morais e éticos. Brotto (1997) relata que o esporte educacional deve conter a cooperação, na qual se espera encontrar o estado de unidade, sentimento de ser pleno, consigo mesmo e com todos os outros seres e de celebrar a convivência coletiva. Segundo Gil e Ruiz (2007), o desporto é um meio importante para que crianças e jovens adquiram uma série de valores positivos, entre eles a cooperação, o trabalho em equipe, a tolerância e a disciplina. Entretanto, a simples prática de atividades lúdico-desportivas não levará automaticamente a estes valores; o professor de Educação Física tem papel importante e fundamental para encaminhar a prática esportiva na idade escolar de modo a conduzi-la para a educação quanto à transmissão destes valores.
Espírito Santo et al. (1998), definem como “valores universais”: verdade, ação correta ou retidão, paz, amor e a não violência.
Assim, podemos perceber através do presente estudo, que a Educação Física vem sendo reconhecida por seu papel de socialização e de uma educação para valores, porém ainda não conseguiu se desvencilhar totalmente de uma visão voltada para o rendimento, competição e formação de atletas. Correia (2006) destaca que os jogos cooperativos podem ser uma proposta coerente para as perspectivas de mudança ou de superação do “mito da competição” que a Educação Física escolar vem buscando. Em resultados encontrados em seus estudos, em uma experiência com alunos do ensino fundamental em uma escola pública da rede estadual do Rio de Janeiro, mostra que nem sempre as atividades com jogos cooperativos são prontamente aceitas, mas admite que estas despertam questões sociais quando “confrontados” com a realidade da cultura competitiva trazida pelos alunos. Esses conflitos são vistos como oportunidades para questionar com os alunos o paradigma da competição e pensar com eles a perspectiva da cooperação em suas relações cotidianas. Assim, como afirma Brotto (1997), com a utilização dos jogos cooperativos, expressamos livremente a solidariedade que existe dentro de nós e compartilhamos qualidades – habilidades humanas essenciais como respeito mútuo, confiança, comunicação e comunhão dos objetivos. O que através das respostas pode ser expresso em cooperação, respeito, companheirismo, união, paz, amor, espírito de equipe, compreensão, amizade e bondade.
Ainda Andrioli (2007), confirmando os dados obtidos em estudo sobre as práticas educativas, verificou que a educação “cooperativa” envolve uma consciência coletiva para o agir conjuntamente para transformar, com base no respeito mútuo, na participação, no reconhecimento de si mesmo e da individualidade do outro, e tudo dentro de um guarda-chuva maior que é a convivência pacífica, o bem-estar social.
Guimarães e cols. (2001) concluíram que as aulas de Educação Física são bastante propicias para o trabalho com atitudes, pois através das situações vividas nas aulas – conflitos provocados pelo aprendizado da competição, o contato físico, a colaboração presente nos jogos (enfrentamento da vitoria/derrota, o contato entre os mais aptos com menos aptos) – é desencadeada uma busca por soluções, que envolve aspectos morais, cognitivos e afetivos. Afirmam ainda que as aulas de Educação Física se mostram um espaço rico para discussões e para a reflexão dos diversos valores que existem na escola, firmando seu papel de colaboradora na formação como um todo e que, o professor é peça fundamental neste processo, devendo assumir o papel de orientador no desenvolvimento das atitudes, devendo servir de exemplo e referência de diálogo.
Disponível no site efdeportes.com através do Link:
Acessado em 22/09/2023
https://www.efdeportes.com/efd169/valores-nas-aulas-de-educacao-fisica.htm
Cooperação X Competição



Disponível na plataforma .bvirtual através do link:
Acessado em 22/09/2023
Trabalhando com Jogos Cooperativos – Marcos Miranda Correia Ed. Papirus
Valorização da Diversidade

Disponível no site exercicioedieta.com.br através do link:
Acessado em 22/09/2023
Temas contemporâneos: Da diversidade de gênero à faixa geracional – 2ª PARTE
Veja também:
Temas contemporâneos: Da diversidade de gênero à faixa geracional – 1ª PARTE







